Resumen
O modo como as pessoas fazem seus tratamentos está entre os maiores desafios no enfrentamento das doenças crônicas.
Objetivou-se caracterizar o conhecimento produzido pelos profissionais da saúde sobre adesão à terapêutica da hipertensão arterial. Estudo bibliográfico, quantitativo, desenvolvido de setembro-2009 a julho-2010, nas bases de dados CINAHL, LILACS, PUBMED, Banco de teses da CAPES e Biblioteca Cochrane. Para a realização da revisão integrativa, as pesquisas deveriam obedecer aos critérios de inclusão: Estudos que abordavam o regime terapêutico ou a adesão terapêutica da hipertensão como foco principal; Disponíveis em português, inglês ou espanhol; Estudos completos disponíveis eletronicamente. Foram empregados os descritores “diagnóstico de enfermagem”, “cooperação do paciente” e “recusa do paciente ao tratamento” e seus correspondentes em inglês e espanhol. Foram selecionados 26 estudos, originários principalmente do Brasil e Estados Unidos e desenvolvidos basicamente por médicos e enfermeiros, com concentração de publicação em 2007 e 2008. 80,77% dos estudos abordaram aspectos da adesão em indivíduos maiores de 20 anos. Quase a metade deles foi desenvolvida com indivíduos na atenção primária de saúde, com destaque para a Estratégia Saúde da Família (ESF). Em relação à temática abordada, os estudos se detiveram basicamente aos fatores intervenientes na adesão, tanto nos que interferem negativamente, como naqueles que predispõem a uma melhoria na adesão à terapêutica anti-hipertensiva. Nota-se predomínio da literatura nos aspectos relacionados à adesão ao tratamento medicamentoso, sendo incipiente o estudo desses mesmos fatores e de métodos de avaliação da adesão ao tratamento não medicamentoso da hipertensão arterial. Com isso, os profissionais da saúde, em especial os enfermeiros, devem se preocupar mais e realizar pesquisas que envolvam o tratamento não farmacológico da hipertensão e as medidas de apoio e educação ao paciente e sua família.
Introdução
O modo como as pessoas fazem seus tratamentos está entre os maiores desafios no enfrentamento das doenças crônicas. Isso porque o tratamento dessas doenças envolve mudanças dietéticas, comportamentais, de estilo de vida e, em especial, uso de múltiplos medicamentos por períodos prolongados, ou mesmo por toda a vida.
As VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão (2010) e o Ministério da Saúde (BRASIL, 2006) destacam que se a hipertensão arterial não for tratada adequadamente, pode acarretar graves consequências para o indivíduo, como acidente vascular cerebral, infarto, insuficiência renal, entre outras, estando entre as causas mais frequentes de morbimortalidade dos adultos e idosos.
Por ser uma doença silenciosa e agressiva, o cumprimento das medidas terapêuticas instituídas pela equipe de saúde é um aspecto de fundamental importância para que haja a redução dessas consequências. O seguimento da terapêutica medicamentosa e não medicamentosa torna-se um espaço onde o enfermeiro deve se encontrar inserido, buscando estratégias junto ao paciente para aumentar sua adesão e o cuidado em relação à redução da incidência dos fatores de risco para a hipertensão que possam contribuir para o surgimento de complicações dessa doença (OLIVEIRA et al., 2008).
Objetivo
Caracterizar o conhecimento produzido pelos profissionais da saúde sobre adesão à terapêutica da hipertensão arterial.
Material e Metodos
Estudo bibliográfico, de natureza quantitativa, desenvolvido por enfermeiros vinculados a Instituições de Ensino Superior dos municípios de Crato e Fortaleza, no estado do Ceará/Brasil.
Para a realização desta revisão integrativa, as pesquisas identificadas nas bases de dados deveriam ter envolvimento com as seguintes questões: O que se compreende por adesão/falta de adesão ao regime terapêutico de doenças crônicas? Quais elementos indicam a falta de adesão a esse regime? Quais fatores dificultam/afetam a adesão terapêutica? Que fatores promovem/caracterizam a falta de adesão? Em que medida o paciente não consegue seguir as recomendações e orientações dos profissionais de saúde?
O levantamento foi realizado de forma online, a partir do acesso inicial pelo Portal de Periódicos da CAPES, a partir do sítio eletrônico http://www.periodicos.capes.gov.br, nas seguintes bases de dados: CINAHL Information Systems (Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature); LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde); PUBMED (National Library of Medicine) e o Banco de teses da CAPES, além do acesso direto ao website da The Cochrane Library (Biblioteca Cochrane).
Foi considerado todo o período de abrangência dessas fontes e foram empregados os descritores controlados “diagnóstico de enfermagem”, “cooperação do paciente” e “recusa do paciente ao tratamento” e seus respectivos correspondentes na língua inglesa (nursing diagnosis, patient compliance, treatment refusal) e língua espanhola (diagnóstico de enfermería, cooperación del paciente, negativa del paciente al tratamiento). Como tais descritores não corresponderam às expectativas de resultados da busca em todas as bases de dados, também foram empregados os descritores não controlados “adesão terapêutica” e “adesão ao tratamento”, também com seus respectivos correspondentes nas línguas inglesa e espanhola em uma das bases selecionadas.
A coleta de dados ocorreu no período de setembro de 2009 a julho de 2010, na qual a busca e a seleção dos artigos foram realizadas simultaneamente por dois revisores, de forma independente, mas tendo por base as questões norteadoras da revisão integrativa. Quando houve alguma discordância entre os revisores, buscou-se o consenso entre as partes.
Nesta revisão, as pesquisas obedeceram aos critérios de inclusão: Artigos, dissertações ou teses que abordavam o regime terapêutico ou a adesão terapêutica como foco principal; Estudos disponíveis nos idiomas português, inglês ou espanhol; Estudos completos disponíveis eletronicamente nas bases de dados selecionadas.
Após esta primeira seleção, foi realizado um segundo refinamento, apenas com um dos revisores, adotando-se como critérios de exclusão a partir deste momento: Editoriais; Cartas ao Editor; Estudos que abordassem a adesão a outras doenças crônicas que não fosse a hipertensão.
Uma vez que cada base de dados possui características próprias para a busca, os processos para localização dos artigos foram adaptados a cada base, mantendo-se em comum as questões norteadoras e os critérios de inclusão e exclusão da revisão integrativa, previamente estabelecidos para manter a coerência na busca dos artigos e evitar possíveis vieses.
Este estudo foi avaliado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COMEPE) da Universidade Federal do Ceará e aprovado para implementação, por ser uma das etapas de uma pesquisa maior.
Resultados
Foram selecionados 26 artigos para serem analisados de forma mais criteriosa. A seguir, tem-se a caracterização dos estudos obtidos com a revisão integrativa sobre adesão à terapêutica anti-hipertensiva:
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Tabela 1. Distribuição dos estudos em relação ao país, ano de publicação, área, sujeitos, foco do estudo, cenário e local de publicação (n=26). Fortaleza, 2011. |
Conforme se observa na tabela 1, os estudos sobre adesão foram originários principalmente do Brasil e dos Estados Unidos da América, desenvolvidos basicamente por profissionais da medicina e da enfermagem. Houve uma concentração de publicação dos estudos em 2007 e 2008. O número pequeno de estudos sobre adesão terapêutica em 2009 pode ser explicado por conta da revisão integrativa ter sido realizada no decorrer deste ano com publicações de periódicos publicados somente durante o primeiro semestre de 2009.
Muitos dos estudos selecionados abordaram aspectos da adesão em indivíduos maiores de 20 anos (80,77%), sendo que a maioria deles investigou pessoas acima de 50 anos nas suas amostras.
Quase a metade deles foi desenvolvida com indivíduos na atenção primária de saúde, com destaque para a Estratégia Saúde da Família (ESF), que foi cenário de seis dos 12 estudos realizados na rede básica.
Em relação à temática abordada, os estudos analisados se detiveram basicamente aos fatores intervenientes na adesão, seja tanto nos que interferem negativamente na adesão, como naqueles fatores que predispõem a uma melhoria na adesão à terapêutica anti-hipertensiva. Entretanto, nota-se predomínio da literatura no que se refere aos aspectos relacionados à adesão ao tratamento medicamentoso, sendo incipiente ainda o estudo desses mesmos fatores e de métodos de avaliação da adesão ao tratamento não medicamentoso da hipertensão arterial.
Discussão
Em relação à faixa etária das populações pesquisadas, ao se avaliar a adesão ao esquema terapêutico prescrito de 120 pacientes com hipertensão em Florianópolis, encontrou-se que a idade do paciente estava entre os melhores valores preditivos de adesão, junto com o controle da pressão arterial, ou seja, os pacientes acima de 60 anos têm mais de cinco vezes a chance de ter maior adesão quando comparados aos indivíduos de 35 a 60 anos (PRADO JÚNIOR; KUPEK; MION JÚNIOR, 2007). Talvez o fato dos indivíduos mais jovens serem mais propensos a não aderir aos regimes explica o grande número de estudos voltados a essa população.
Já em relação aos cenários de pesquisa, Santos e Backes (2009) concordam que a ideologia da ESF contribui para a melhoria da adesão à terapêutica de doenças crônicas como a hipertensão (possibilidade de participação dos usuários em grupo de educação em saúde, apoio da equipe multiprofissional, estabelecimento de vínculo e de relação de confiança com a equipe, troca de experiências entre os que apresentam o mesmo diagnóstico, facilidade de acesso, entre outros aspectos), corroborando com os estudos citados nas VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão (2010).
Entretanto, Araújo, Paz e Moreira (2010) destacam que para se efetivar o cuidado integral em saúde não só para as pessoas com hipertensão arterial, mas para toda a população coberta por essa Estratégia requer que todas as esferas gestoras envolvidas assumam processos de planejamento e avaliação em saúde no cotidiano da ESF e dotem os serviços de saúde de infraestrutura nos diversos níveis de atenção para mudanças no processo do cuidado. Além disso, importa em que os profissionais passem a estabelecer diálogos terapêuticos e considerem a experiência da saúde e da doença do usuário na decisão do tratamento, ultrapassando os protocolos técnicos.
Conclusões
Conclui-se que grande parte da literatura sobre adesão se volta ao aspecto farmacológico da hipertensão arterial. Com isso, os profissionais da saúde, em especial os enfermeiros, devem se preocupar mais e realizar pesquisas que envolvam o tratamento não farmacológico da hipertensão e as medidas de apoio e educação ao paciente e sua família. Na saúde coletiva, o enfermeiro realiza o acompanhamento dos indivíduos em tratamento para a hipertensão, sendo responsável pelas consultas de enfermagem, abordando além da importância da adesão, as possíveis intercorrências ao tratamento e a importância de manter hábitos de vida saudáveis ou modificar aqueles que possam comprometer sua saúde.
REFERÊNCIAS
- ARAÚJO, J. L.; PAZ, E. P. A.; MOREIRA, T. M. M. Hermenêutica e o cuidado de saúde na hipertensão arterial realizado por enfermeiros na Estratégia Saúde da Família. Esc Anna Nery (impr.) 2010; 14(3): 560-6.
- BRASIL Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Hipertensão arterial sistêmica para o Sistema Único de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2006.
- DIRETRIZES Brasileiras de Hipertensão Arterial, VI. Rev. Bras. Hipertens. jan/mar, 2010; 7(1).
- OLIVEIRA, C. J.; SILVA, M. J.; ALMEIDA, P. C.; MOREIRA, T. M. M. Avaliação do risco coronariano em idosos portadores de hipertensão arterial em tratamento. Arquivos Brasileiros de Ciências da Saúde, 2008; 33(3): 162-7.
- PRADO JÚNIOR, J. C.; KUPEK, E.; MION JÚNIOR, D. Validity of four indirect methods to measure adherence in primary care hypertensives. Journal of Human Hypertension. 2007; 21: 579-84.
- SANTOS, E. R. D.; BACKES, M. T. S. Hipertensão arterial sistêmica: avaliando usuários de um grupo de educação de uma unidade básica de saúde. Nursing (São Paulo). 2009; 12(134): 326-32.
Publicación: Septiembre 2011 |