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Cardiología del Ejercicio/Sports Cardiology

Atividade Sexual e Coração

Ricardo Stein

Médico do Serviço de Cardiologia do
HCPA e HMV
Coordenador do Ambulatório de
Cardiopatia Isquêmica do HCPA, Brazil.

 

Artigo de Revisão

Introdução
Os avanços na medicina têm proporcionado um incremento significativo na expectativa de vida. Por outro lado, ocorre um aumento na prevalência de doenças crônicas que acompanham o processo de envelhecimento, a qual é resultante desse crescimento exponencial na população de idosos. No entanto, as melhorias na qualidade de vida tem sido de tal magnitude que hoje é possível manter-se em atividade até idade bastante avançada, sem que prejuízos orgânicos tenham um grande impacto sobre a capacidade funcional. Sendo assim, sabe-se que o envelhecimento da população traz consigo mudanças na performance quantitativa e qualitativa na atividade sexual de homens e de mulheres, que a disfunção erétil tem sido uma queixa cada vez mais explicitada nos consultórios e clínicas e que o uso de fármacos para o tratamento das doenças cardiovasculares pode produzir diversas mudanças no que diz respeito ao desempenho sexual. Dentro dessa ótica, dúvidas sobre a segurança da atividade sexual são comuns tanto entre pacientes quanto entre os médicos que os cuidam e, freqüentemente, são negligenciadas nas consultas de rotina ou por ocasião da alta hospitalar após algum evento ou procedimento cardíaco. A atividade sexual é vista pela maioria dos médicos e pacientes como "tabu" e, assim sendo, acaba sendo estigmatizada e deixada de lado nos diferentes momentos de interação entre profissionais e seus clientes. O paciente não pergunta e o médico não responde, sendo selado um pacto velado de silêncio.

Mecanismos da ereção
Para que aconteça a relação sexual é necessária uma série de alterações cardiovasculares, neurais e metabólicas. Cabe salientar que existe associação entre o aumento da freqüência cardíaca e da pressão arterial sistêmica com a ereção peniana através do registro da pressão peniana, pressão arterial na aorta abdominal e freqüência cardíaca de ratos conscientes durante o coito [1]. Aliás, a ereção está intimamente ligada ao sistema cardiovascular e ocorre quando o tecido erétil relaxa, permitindo aumento de fluxo sangüíneo, mecanismo controlado através da modulação do sistema nervoso autônomo.

O pênis recebe inervação simpática da medula toracolombar e, através da liberação de noradrenalina, as células musculares lisas se mantêm contraídas e o pênis flácido. O sistema parassimpático libera neuromediadores que relaxam estas células, permitindo a ereção. Esta ocorre como um reflexo a um estímulo da área genital percebido pelas fibras sensórias e transmitido pelo nervo peniano dorsal e nervo pudendo, ativando motoneurônios pudendos, causando contrações do músculo perineal estriado. Além disso, barorreceptores e quimiorreceptores transmitem as informações aferentes à medula através dos IX e X pares cranianos.

Com o aumento da pressão arterial aumentam as aferências transmitidas pelo nervo vago ao trato solitário, cujos neurônios exercem influência excitatória sobre a medula caudal ventrolateral. Seus neurônios, por sua vez, inibem os da medula rostral ventrolateral, que ativam tonicamente os motoneurônios pré-ganglionares na origem da vasoconstrição. A diminuição da pressão arterial ocorre quando os motoneurônios da medula caudal ventrolateral inibem os da medula rostral ventrolateral, diminuindo o efluxo simpático para os vasos sangüíneos.

Quanto à regulação da atividade, sugere-se que os mesmos núcleos na medula, ponte e hipotálamo podem conter neurônios pré-motores que se projetam nos motoneurônios bulbares ou da medula espinhal, controlando uma ampla população de neurônios autônomos.

O óxido nítrico pode ter um papel no controle central da ereção e nas alterações cardiovasculares. Em ratos anestesiados, a injeção de doadores de óxido nítrico na porção rostral do bulbo diminui a atividade do nervo renal, cujo estímulo leva à diminuição da pressão sistólica. Já a injeção na porção caudal do bulbo, leva ao aumento da pressão sistólica [1].

Além do óxido nítrico, é provável que outros sistemas originados na medula e na ponte também exerçam influência autonômica através da liberação de serotonina, noradrenalina, adrenalina e dopamina.

O cérebro tem papel principal no controle cardiovascular e erétil. Acredita-se que algumas áreas hipotalâmicas integrem e controlem as diversas vias autonômicas. Sabe-se que o estímulo da área pré-ótica facilita a atividade sexual e leva ao aumento da pressão intracavernosa e diminuição da pressão arterial.

Alguns aspectos fisiológicos da atividade sexual
A atividade sexual pode ser dividida em quatro fases que são: excitação, platô, orgasmo e resolução. O maior gasto energético durante a relação sexual ocorre no orgasmo, momento no qual o consumo de oxigênio atinge o seu valor de pico, com retorno as condições basais dentro de aproximadamente 2 a 3 minutos [2]. A "atividade sexual marital" é freqüentemente comparada a um exercício que produz um gasto energético de aproximadamente 2 a 3 METS na fase pré-orgásmica e 3 a 4 METS durante o orgasmo. Entretanto, isso varia muito de indivíduo para indivíduo. Praticamente todos os estudos por nós revisados assumem como válida a clássica relação VO2/FC, onde se deduz que na atividade sexual ocorra o "steady state", o que certamente não pode ser afirmado, especialmente quando se trata de uma atividade multifatorial como o sexo entre seres humanos. Na maior parte das ocasiões as respostas cardiovasculares e metabólicas na atividade sexual parecem estar mais relacionadas à excitação do que ao esforço físico propriamente dito. Essa distinção implica em particularidades importantes na forma pela qual a tolerância cardiovascular para o sexo deveria ser efetivamente avaliada.

Estudos da década de sessenta [3] verificaram as alterações no duplo produto (freqüência cardíaca x pressão arterial sistólica) durante o ato sexual conjugal em homens saudáveis e determinaram que nas posições avaliadas (posição do missionário – homem por cima - e na posição da mulher por cima), o esforço durante o ato sexual corresponde aquele observado em uma atividade física com gasto energético classificado como de baixo a moderado. A freqüência cardíaca média de pico atinge um valor de 114 batimentos por minuto (desvio padrão de 14 batimentos) e a pressão arterial de pico apresenta valores médios de 163/81 mmHg, sendo que tais respostas fisiológicas foram mensuradas no pico do orgasmo. Bohlen [4] mensurou de forma indireta o gasto energético em quatro diferentes modalidades sexuais, encontrando um consumo de oxigênio de pico de 3,3 METs para a posição do missionário, tendo as demais modalidades avaliadas (mulher por cima, auto-estimulação e estimulação pela parceira) apresentado gasto energético ainda menor (2,5, 1,8 e 1,7 METs, respectivamente). Cabe então ressaltar que o gasto energético acima descrito é comparável ao de muitas atividades cotidianas, como pode ser verificado na Tabela 1. No entanto, não podemos extrapolar tais informações, pois não existem dados na literatura quanto ao gasto energético que outras modalidades sexuais possam exigir (exemplo: atividade sexual não conjugal, sexo oral, atividade sexual homossexual, entre outras práticas). Além disso, não se pode deixar de mencionar que 3 METs pode ser um esforço considerável para um indivíduo na terceira idade, correspondendo a um consumo de oxigênio próximo a 80% do VO2 de pico, quando para um jovem de 30 anos tal consumo fica na ordem de 30% do máximo.

Tabela 1: Consumo de oxigênio estimado para algumas atividades (expresso em METs).

Por falar em diferenças etárias, nessa área do conhecimento devemos considerar sempre o impacto do processo natural de envelhecimento, o qual altera inclusive a fisiologia gênito-urinária. Com o passar do tempo, os homens passam a ter menos ereções espontâneas e estimulação maior é necessária para conseguir ereção completa. O período refratário também aumenta, mas, curiosamente, a duração da ereção parece aumentar com a idade [5]. Como já considerado, ocorre aumento exponencial na prevalência de disfunção erétil com o envelhecimento, afetando cerca de 30% dos homens dos 40 aos 70 anos [6,7] e cerca de 75% dos homens de 80 anos [6].

Os dados disponíveis sobre os diferentes aspectos relacionados à fisiologia sexual em mulheres são bastante escassos, mas não há razão para acreditar na existência de grandes variações entre os gêneros, exceto o fato de as mulheres poderem ter múltiplos orgasmos no mesmo intercurso sexual e pela grande prevalência de anorgasmia, especialmente nas faixas etárias mais avançadas.

Impacto das doenças cardiovasculares na atividade sexual
As doenças cardiovasculares interferem na atividade sexual dos pacientes e na vasta maioria das vezes atua como um fator complicador. Isto tem sido observado basicamente por duas razões principais:
1) pelo diagnóstico cardíaco e todas as implicações psicológicas que tal "marca" acarreta, como ansiedade, medo da morte, restrição na atividade física;
2) a necessidade do uso de diversos fármacos capazes de produzir efeitos adversos que prejudicam a performance sexual (especialmente pelo desencadeamento de disfunção erétil e/ou perda da libido).

O manejo dos pacientes com doença cardíaca inclui uma grande diversidade de drogas e procedimentos invasivos de variados graus. Tais procedimentos produzem diferentes níveis de restrição à atividade física e, com ela, impactos distintos na vida sexual do indivíduo. Estima-se que, após um diagnóstico ou procedimento cardíaco, cerca de 25% dos pacientes retornem a vida sexual normal, apresentando a mesma freqüência e intensidade prévias. Metade dos pacientes retomam a vida sexual com algum grau de diminuição em freqüência e/ou intensidade e que os 25% restantes não reassumem sua vida sexual [8]. Tais números representam um espectro mais funesto quando nos referimos à insuficiência cardíaca. Cerca de 40% dos homens em classe funcional III da New York Heart Association referem ser incapazes de ter uma vida sexual ativa [5]. Há diversas explicações para uma atividade sexual reduzida após eventos cardiológicos, dentre os quais podem ser citados medo de morte coital ou reinfarto, dispnéia, ansiedade, angina pectoris, exaustão, alterações no desejo sexual, depressão, perda da libido, impotência, preocupação ou ansiedade do cônjuge, além de sensação de culpa [7].

Durante a atividade sexual, a FC e a PA aumentam da mesma forma que em qualquer atividade física aeróbica: a questão é se o grau de aumento é excessivo e potencialmente perigoso. Além disso, é necessário saber se terapia anti-anginosa convencional prescrita para o manejo da dor ou do desconforto no esforço pode ter o mesmo efeito benéfico durante atividade sexual.

Fármacos para tratamento cardiovascular e sua relação com o sexo.
Praticamente todas as classes de fármacos usados no tratamento das doenças cardiovasculares podem causar alterações na atividade sexual e um percentual não desprezível dos distúrbios sexuais podem ser causados pelas drogas usadas. Os fármacos que mais comumente causam disfunções sexuais são os anti-hipertensivos e os diuréticos [7]. A Tabela 2 mostra um apanhado geral e não estratificado dos distúrbios sexuais e das drogas mais comumente implicadas.

Por outro lado, algumas medicações que são relacionadas aos "distúrbios sexuais iatrogênicos" também podem facilitar a vida sexual dos cardiopatas. O uso de beta-bloqueador, por exemplo, aboliu sintomas de angina em 65% dos pacientes com angina estável que relataram dor durante a atividade sexual [9].

No entanto, é por demais importante mencionar que na vasta maioria dos estudos as análises são realizadas sem que o paciente tenha sido testado na vigência de terapia anti-anginosa, fato este que torna difícil uma avaliação mais precisa nos portadores de cardiopatia que utilizam tais fármacos.

Disfunção erétil: com o objetivo de mensurar a prevalência de disfunção erétil no Brasil e em outros três países (Itália, Japão e Malásia), além de estudar a associação da disfunção com características demográficas e com outras condições médicas, os autores avaliaram, através de questionário, uma amostra de 600 homens com idade entre 40 e 70 anos, em cada país [10]. A prevalência de disfunção classificada como moderada a completa ajustada para idade foi de 34% no Japão, 22% na Malásia, 17% na Itália e 15% no Brasil. O risco aumentado para tal disfunção aqui também foi relacionado com presença de diabetes, com doenças cardíacas, com sintomas do trato urinário baixo, com tabagismo e com depressão, além de aumentar em 10% por ano adicional de vida. Sua presença foi inversamente associada com nível educacional elevado e com hábito regular de se exercitar.

Inibidores da fosfodiesterase 5 (PDE5) e risco cardiovascular: em pacientes com vasos gravemente obstruídos, o fluxo miocárdico é dependente da pressão de perfusão, e uma diminuição excessiva na PA pode produzir isquemia de grande magnitude e infarto. Não há evidência que os inibidores da fosfodiesterase 5 aumentem o risco de IAM, embora evidências suficientes sugiram que há um pequeno aumento no risco relatado à atividade sexual (tais fármacos aumentariam o risco de evento por sua ação indireta, já que ao proporcionarem a ereção, expõem o homem à atividade sexual).

O Sildenafil é um inibidor oral da fosfodiesterase que aumenta a função erétil, tendo sido o precursor da classe. Para funcionar o sildenafil requer libido preservada e estimulação sexual, associação que resulta na liberação de óxido nítrico no corpo cavernoso do pênis, estimulando a guanilato ciclase com a formação subseqüente de guanosina monofostato ciclica, substância que leva ao relaxamento da musculatura lisa nas artérias, arteríolas e sinusóides do corpo cavernoso. Desta forma, ocorre o aumento de fluxo sangüíneo e a ereção (na região urogenital a fosfodiesterase 5 é a enzima mais presente).

A literatura é rica em estudos que utilizaram o Sildenafil em diferentes subgrupos de pacientes [11,12,13]. Em ambiente de estudo clínico essa droga não causou aumento na incidência de eventos cardiovasculares sérios ou de IAM no estudo de Morales e colaboradores. O Sildenafil também foi efetivo em homens com doença arterial coronária estabelecida, hipertensão arterial, diabetes, em situações onde causas orgânicas não vasculares provocam a disfunção erétil , além de agir em situações de disfunção erétil de origem psicogênica.

Em pacientes com insuficiência cardíaca estável e disfunção erétil o sildenafil foi bem tolerado, além de ter sido efetivo no tratamento da disfunção erétil "per se" nesse grupo de pacientes. Curiosamente, nesse ensaio clínico cruzado que foi realizado em nosso país, tendo sido publicado no Circulation em agosto de 2002, os autores observaram um incremento na capacidade de exercício, além da redução na freqüência cardíaca durante o esforço com o uso do sildenafil [14]. Teoricamente, tal achado pode sugerir que essa droga também seja capaz de reduzir o consumo de oxigênio pelo miocárdico durante a atividade sexual.

Por outro lado, é digno de menção que os inibidores da fosfodiesterase 5 ainda não foram sistematicamente testados em pacientes com doença cerebrovascular, angina instável ou de recente começo, assim como em portadores de arritmias graves.

Riscos da atividade sexual e estratificação do risco cardiovascular
Estudos sugerem que um paciente com doença cardíaca capaz de subir 1 ou 2 lances de escada pode manter sua atividade sexual conjugal sem apresentar maior risco ou até mesmo sem apresentar sintomas cardíacos [15]. No entanto, é postulado que o risco de sofrer infarto do miocárdio durante atividade sexual é 3 vezes maior que o risco em outras situações com gasto energético similar [16,17]. Sendo assim, parece salutar lembrar que sintomas cardiovasculares durante o sexo raramente ocorrem em pacientes que não têm sintomas similares durante o teste de esforço, especialmente se o indivíduo alcançou o equivalente a seis METS no teste e permaneceu assintomático e sem alterações eletrocardiográficas de isquemia [18].

Podemos classificar os pacientes conforme seu quadro clínico para estabelecer orientações quanto à prática da atividade sexual [6]:
a) os pacientes de baixo risco cardiovascular são aqueles classificados de acordo com o que segue: assintomáticos; portadores de menos de três fatores de risco para DAC (excluindo gênero); aqueles com HAS controlada, angina estável classe I-II da Sociedade Canadense de Cardiologia (SCC), aqueles submetidos à revascularização miocárdica com sucesso, pacientes com IAM passado não-complicado, portadores de doença valvular leve, ICC (disfunção de VE e/ou NYHA I). Esses sujeitos podem ser encorajados para recomeçar a atividade sexual ou receber tratamento para disfunção sexual.
b) pacientes de risco intermediário: portadores de três ou mais fatores de risco para DAC (excluindo gênero), presença de angina estável Classe II-III da SCC, pacientes com IAM recente (ocorrido há mais de 2 e menos de 6 semanas), portadores de disfunção de VE e/ou ICC NYHA II, seqüela não-cardíaca de doença aterosclerótica (AVE e/ou doença vascular periférica). Esses indivíduos devem realizar uma avaliação cardiológica criteriosa antes de recomeçar a atividade sexual.
c) pacientes de alto risco cardiovascular: presença de angina instável ou refratária, HAS não-controlada, ICC NYHA III-IV, IAM recente (<2 semanas), arritmias de alto risco, cardiomiopatias graves, doença valvular moderada a grave. Para esses pacientes a atividade sexual pode constituir um risco significativo, devendo-se adiar a atividade sexual até estabilização da condição cardíaca. A liberação do cardiologista é necessária antes de se reassumir a vida sexual ativa, pois o risco pode suplantar o benefício.

Sexo visto como atividade física
A atividade sexual deve ser encarada como qualquer outra atividade física e, portanto, a ocorrência de morte súbita durante o coito é, a exemplo da morte súbita relacionada ao exercício, um evento raro que responde por 0,6% dos casos de morte súbita [8-19].  Nota-se, nestes casos, a repetição de alguns fatores que ajudam a explicar a ocorrência do evento naquela situação específica. A maioria das mortes ocorreu em homens que se envolveram em relações extraconjugais, onde as parceiras são cerca de vinte anos mais jovens que a parceira habitual e, após refeições copiosas, geralmente associadas ao consumo abundante de álcool. Um estudo observacional alemão da década de noventa [20] avaliou os achados de necrópsias realizadas ao longo de 27 anos, encontrando 48 casos de morte durante atividade sexual dentre as mais de 26 mil necrópsias realizadas. Na maioria absoluta dos casos os homens estavam na faixa etária dos 60 anos e a causa principal da morte foi infarto do miocárdio. A amostra feminina foi diminuta, mas houve predominância de causas cerebrovasculares como promotoras do óbito. Setenta e cinco porcento dos casos ocorreram em relações extraconjugais, a maioria delas com prostitutas jovens (mulheres com menos de 30 anos de idade).

De um modo geral, considera-se que o risco de se sofrer um infarto do miocárdio tendo como gatilho à atividade sexual também seja baixo. Cerca de 3% dos pacientes com infarto agudo do miocárdio referem atividade sexual 2 horas antes do início dos sintomas, mas apenas em 0,9% dos casos a atividade sexual pode ser pontuada como fator desencadeante. O risco relativo de ocorrer um infarto 2 horas após relação sexual é de 2,5, não importando se o indivíduo tem ou não diagnóstico prévio de doença cardíaca. Este risco é significativamente menor naqueles indivíduos que desempenham atividades físicas de forma regular e crônica [16].

Em pacientes com doença arterial coronariana estabelecida, o coito, quando comparado com a atividade física vigorosa e com resposta emocional intensa, acaba por representar um pequeno risco de desencadeamento de infarto do miocárdio. Além disso, comparado com METS de atividades diárias, a demanda corporal total de oxigênio e o aumento na demanda miocárdica de oxigênio durante a atividade sexual são modestas e a duração do aumento é breve (a atividade sexual vigorosa pode aumentar o gasto de energia para 5 a 6 METS).

Pacientes com angina estável que estão em vigência de um tratamento ótimo para sua condição cardíaca parecem não ter um aumento significativo no risco cardiovascular durante a atividade sexual. No entanto, percentual não desprezível desses indivíduos irão apresentar disfunção erétil, assim como pacientes com disfunção erétil freqüentemente terão um ou mais fatores de risco para doença arterial coronariana. É importante lembrar que a disfunção erétil atinge a mesma faixa etária que a angina pectoris e, por sua vez, é por si só um fator de risco para doença arterial coronariana (além de ser mais comum na presença de diabetes, doença cardíaca e HAS). Por outro lado, pacientes revascularizados através de angioplastia/stent ou por cirurgia (CRM), que tinham diagnóstico de angina estável e que no momento estejam assintomáticos, não apresentam um risco aumentado para eventos cardíacos durante a atividade sexual. Não conseguimos informações na literatura a respeito de relações homossexuais, mas relacionamentos homossexuais de longo tempo não devem, teoricamente, receber conselho diferente.

Pacientes classificados como de baixo risco em atividades diárias normais têm um risco para evento cardíaco de um em um milhão por hora. Tal risco dobra durante a atividade sexual, aumentando para dois por um milhão por hora (e esse risco somente é dobrado no período de 2 horas após o sexo). Pacientes com doença arterial coronariana não selecionada e a maioria dos pacientes pós-IAM têm um risco 10 vezes maior no sexo (o que corresponde a vinte chances em um milhão por hora).

Aqui cabe uma consideração importante. A implementação de um programa de exercício físico regular e em bases crônicas aliado a modificações agressivas nos fatores de risco pode proporcionar uma redução significativa no risco de morte ou evento coital, fato esse que se assemelha ao impacto dessas mesmas medidas higiênco-dietéticas sobre o risco no dia a dia desses cardiopatas.

O tratamento atual do infarto do miocárdio torna mandatória a avaliação do risco cardiovascular do paciente pré-alta. Sendo assim, é desejável que todos os pacientes realizem alguma estratificação (invasiva ou não invasiva), mesmo que seja através de um teste de exercício submáximo (ergometria ou ergoespirometria). Tal teste visa atingir um consumo de oxigênio similar ao que o paciente virá a desempenhar em suas atividades físicas usuais.

Como anteriormente citado, a correlação entre isquemia induzida demonstrada durante teste ergométrico submáximo e isquemia durante atividade sexual já foi testada em pacientes com angina estável [18]. Todos os pacientes que apresentaram isquemia sintomática ou silenciosa, verificada por depressão de segmento ST em Holter de 24 horas, também o fizeram durante teste ergométrico, demonstrando o excelente valor preditivo negativo do teste ergométrico.

O exercício regular parece ter um efeito protetor significativo. Por isso, acredita-se que os médicos devam reforçar a participação de pacientes com DAC conhecida em programas de reabilitação cardíaca, seja ela supervisionada ou até mesmo não supervisionada. O exercício aeróbico tem o potencial de promover uma diminuição no trabalho cardíaco necessário durante a atividade sexual e também de reduzir o risco de atividade que desencadeie IAM. Claro que no contexto generalista dessas orientações sempre ocorrerão exceções. Lembramos que os pacientes com risco maior de IAM são aqueles que devem realizar uma avaliação cardiológica completa antes da recomendação para prática de atividade física, e nessa situação, se inclui a atividade sexual. Em um percentual desses pacientes, um simples teste de tolerância ao exercício pode ajudar os médicos a avaliar a segurança cardíaca potencial para sexo e individualizar as recomendações de acordo com o caso.

Embora não existam dados específicos sobre horário da relação sexual e risco para eventos cardiovasculares, por analogia e levando em consideração o que já está bem estabelecido na literatura internacional em relação ao horário do exercício no qual o cardiopata realiza sua atividade física (o maior risco é não se exercitar; exercício regular é salutar seja pela manhã, à tarde ou à noite), se acredita que no cardiopata estável ativo não haja risco aumentado, independentemente do horário em que a relação sexual ocorra.

Por fim, quanto maior for a regularidade no nível de atividade física do indivíduo e, presumivelmente do seu condicionamento aeróbico, menor será a probabilidade que o coito seja um fator predisponente para algum evento cardiovascular. Incremento no condicionamento físico tem sido associado com menor freqüência cardíaca e volume sistólico, assim como tal aspecto atua positivamente sobre outros parâmetros cardiovasculares, metabólicos e autonômicos, independentemente do nível submáximo de exercício ao qual o sujeito seja exposto. Assim sendo, tanto o cardiopata quanto o não cardiopata bem condicionado apresentam um fator protetor para o desencadeamento de eventos de uma forma geral, além de provavelmente estarem mais protegidos do potencial gatilho para IAM e outras síndromes coronárias que a atividade sexual possa induzir.

"Aconselhamento sexual"
Os pacientes devem receber orientações sobre atividade sexual da mesma forma que recebem informações sobre retorno ao trabalho e sobre como devem se engajar em programas de exercício. O cônjuge deve ser informado sobre a situação do companheiro(a) na máxima extensão desse aconselhamento possível. Algumas recomendações devem ser dadas sobre como diminuir o esforço despendido nas relações sexuais. Deve-se evitar manter atividade sexual após as refeições, após consumo excessivo de álcool ou em temperaturas extremas, bem como em períodos de fadiga pronunciada [7] primeiro mês após uma cirurgia cardíaca, deve evitar-se o peso do corpo do parceiro(a) sobre a cicatriz cirúrgica. Os sintomas cardíacos que surgem durante a atividade sexual são na maioria das vezes relacionados à taquicardia, sendo o controle da freqüência cardíaca no exercício chave fundamental para o sucesso da terapia [7] uso de nitratos antes da relação sexual é útil no controle dos sintomas e no alívio do medo de uma performance sexual prejudicada por angina [21].

Por fim, deve-se ressaltar que o uso de nitrato é formalmente contra-indicado nos pacientes que usam sildenafil, vardenafil ou outras drogas que inibem a fosfodiesterase 5 e que são utilizadas no tratamento da disfunção erétil devido a reação hipotensiva potencialmente letal [8].

Tabela 2: Tipos de alterações sexuais e fármacos implicados.

Na tabela acima não estão especificados os percentuais relativos de apresentação de cada um dos sintomas em relação à droga citada.

 

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- Doutor em Cardiologia pela UFRGS
- Professor do Curso de Pós Graduação em Cardiologia e Ciências Cardiovasculares da UFRGS
- Médico do Esporte
- Professor de Educação Física
- Médico do Serviço de Cardiologia do HCPA e HMV
- Coordenador do Ambulatório de Cardiopatia Isquêmica do HCPA
- Diretor Médico do Vitta – Exercício & Clínica de Saúde
- Diretor Científico da Sogamede.
- Editor da Revista do Departamento de Ergometria e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
- Presidente do XI Congresso Nacional do Departamento de Ergometria e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
- Coordenador do FUNCOR, Sociedade Brasileira de Cardiologia.
- Diretor Científico do Departamento de Ergometria e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

 

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