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Benefícios do exercício físico na Hipertensão Arterial
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Celso Ferreira Clínica da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC, Santo André, São Paulo, Brasil. |
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Celso Ferreira Filho Faculdade de Medicina de Santo Amaro, UNISA, São Paulo, Brasil. |
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Adriano Meneghini Faculdade de Medicina da Fundação do ABC, Santo André, São Paulo, Brasil. |
Andrés Ricardo Pérez Riera Faculdade de Medicina da Fundação do ABC, Santo André, São Paulo, Brasil. |
Resumo
As doenças cardiovasculares constituem a maior causa de mortalidade no mundo ocidental. Por sua vez, a hipertensão arterial mesmo leve ou moderada eleva de modo importante a morbi-mortalidade. Por outro lado o tratamento da hipertensão arterial apresenta limitações na abordagem representada pela falta de adesão ao tratamento como conseqüência de vários fatores: custo financeiro, efeitos colaterais dos fármacos num paciente previamente assintomático, falta de uma explicação adequada por parte do médico relativas às conseqüências da descontinuidade do tratamento, baixo nível sócio-cultural, etc. O sedentarismo é um dos fatores de risco de maior prevalência, interferindo de modo direto na morbi-mortalidade das doenças cardiovasculares, e indireto quando se considera que tem grande representação na síndrome metabólica e portanto na hipertensão arterial e suas conseqüências. Desta forma é de grande importância no arsenal terapêutico em todos os casos proceder à implementação de modificações do estilo de vida de preferência em forma multidisciplinar particularmente em hipertensos leves e moderados. As atividades físicas principalmente aeróbicas, leves ou moderadas, devem ser recomendadas em todos os casos fundamentadas em numerosos trabalhos sistemáticos e de metanálise que oferecem amplo respaldo científico a este proceder. O principal efeito e benéfico desta prática decorrem da diminuição da atividade simpática.
Introdução
Mesmo a hipertensão arterial (HA) leve ou moderada ocasiona aumento significativo do risco de acidente vascular cerebral, insuficiência renal, cardíaca, coronária (angina pectoris infarto de miocárdio), diabetes mélito e hipertrofia ventricular esquerda [1]. Além disso, a HA encontra-se freqüentemente associada à dislipidemia, diabetes e obesidade centrípeta ou visceral, constituindo a síndrome metabólica [2], entidade que eleva ainda mais os riscos de doença cardiovascular [3].
Por outro lado, é de conhecimento geral que as condições sócio-culturais-econômicas inadequadas e a falta de adesão ao tratamento, entendida como quanto ou como o comportamento do paciente difere das orientações médicas [4], constituem grandes obstáculos ao controle da hipertensão arterial, mesmo nos países desenvolvidos. Entre estes, para valores-alvo de pressão arterial 140/90 mmHg, podem ser citados os porcentuais de controle da hipertensão arterial tais como os EUA (34%) [5], Inglaterra (30%) [6], e França (24%) [7], que são notoriamente insatisfatórios e ilustram entre outros motivos, a baixa de adesão ao tratamento.
O caráter crônico da moléstia, que exige uso continuo de drogas até ao fim da vida associado à ausência de sintomas específicos, ou de complicações que ocorreriam em longo prazo, são fatores que contribuem para o abandono do tratamento especialmente o farmacológico.
A abordagem multidisciplinar, individual ou em grupo pode incluir um clínico geral, cardiologista, nefrologista, pediatra, geriatra, endocrinologista, nutricionista, psicólogo, enfermeiro, assistente social, farmacêutico e o professor de educação física, trazem consigo a virtude de motivar os pacientes para atingirem as metas e objetivos [4]. Por proporcionarem maior eficiência com menor quantidade de fármacos diminuem a probabilidade de efeitos adversos e tornam-nas menos dispendiosas, contribuindo para melhorar a adesão ao tratamento.
A redução moderada de sal, a suplementação de potássio, o abandono do vicio do fumo, drogas ilícitas, a redução do álcool, a correção do sobrepeso ou obesidade, constituem as modificações básicas do estilo de vida para a abordagem da HÁ e não ocasionam efeitos colaterais.
A prática regular de atividades físicas refletem-se na redução de diversos dos fatores de risco, têm efeitos positivos na qualidade de vida e se relaciona inversamente com o aparecimento de doenças crônico-degenerativas [8,9]. De acordo com Ketelhut et al, os exercícios aeróbicos associaram-se à diminuição da pressão arterial tanto em repouso quanto durante sua prática, de modo comparável ao efeito farmacológico, mantendo-se este efeito num acompanhamento de 3 anos em que perdurou a prática regular da atividade física [10].
Segundo o National Center for Chronic Disease Prevention and Health Promotion ais de 60% dos adultos são sedentários [8], no Brasil o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatístico refere sedentarismo em 80,8% dos adultos [11], e na cidade de São Paulo (Brasil) a prevalência do sedentarismo é de 68,7% em adultos [12]. Esses valores são de toda a forma bastante elevados, embora possam variar de acordo com a metodologia da abordagem.
Constitui portanto atraente alternativa de tratamento aos portadores de HA, particularmente para a pré-hipertensão (até 139/89 mm Hg sem lesão de órgãos alvo, nefropatia ou diabete melito [5]) devendo ser incentivada fortemente a prática regular de exercícios físicos. Em situações de pré-hipertensão com a concomitância de diabete melito ou nefropatia e nos estágios I e II com ou sem fatores de risco associados, onde a terapêutica farmacológica é mandatória [5], os exercícios físicos potencializam o tratamento farmacológico, e minimizam os efeitos colaterais com evidente aumento da adesão.
A predominância do sedentarismo dentre a prevalência dos demais fatores de risco associados à HÁ é a demonstração eloqüente da importância dos exercícios físicos, sobretudo nas elevações menos acentuadas da pressão arterial sem lesões de órgãos alvo e co-morbidades tais como o diabete melito ou nefropatias. Nestas condições, a estratégia de modificação do estilo de vida constitui o procedimento preferencial para a abordagem da HA [4,5].
Dados derivados do estudo Framingham em portadores de pressão arterial limítrofe (130-139/85-89 mm Hg), dão conta de que este grupo apresenta maiores taxas de eventos cardiovasculares quando comparado com aqueles com valores ótimos da pressão arterial (120/80 mm Hg) [13].
Portanto se torna obrigatório no tratamento dos portadores de HA, particularmente para a pré-hipertensão (até 139/89 mm Hg sem lesão de órgãos alvo, nefropatia ou diabete melito [5]) e em hipertensos leves e moderados incentivar fortemente a prática de exercícios físicos objetivando atingir valores mais favoráveis. Em situações de pré-hipertensão com a concomitância de diabete melito ou nefropatia e nos estágios I e II com ou sem fatores de risco associados, onde a terapêutica farmacológica é mandatória [5], os exercícios físicos potencializam o tratamento farmacológico e minimizam os efeitos colaterais, com evidente melhora da adesão.
Vale a lembrança da síndrome metabólica, ainda sem critérios uniformes para a definição, que inclui o sedentarismo quer como um de seus componentes [14], quer como um de seus fatores de risco [15], e daí mais uma vez se reforça a importância dos exercícios físicos tendo em vista a prevenção primária ou secundária, especialmente das doenças cardiovasculares. É também importante considerar que, além da redução dos valores pressóricos, os exercícios físicos contribuem para o aumento do colesterol-HDL, na redução os níveis de lipoproteínas de baixa densidade( LDL-C) e muito baixa densidade( VLDL-C), redução da resistência à insulina, a intolerância à glicose e diminuição do sobrepeso. [16,17].
Instituições e organizações de países desenvolvidos têm implementado esforços na área da saúde pública e na prevenção de várias doenças como as coronáriopatias e a hipertensão arterial. Com esse propósito, tem sido dada ênfase à redução do sedentarismo, mediante planos de adoção de atividade física regular para melhoria da saúde individual e coletiva [8,9]. Tanto é assim, que devido ao alto impacto na saúde pública, proporcionado por um estilo de vida mais ativo, tem sido levado a efeito à criação de campanhas de combate ao sedentarismo em nível mundial, inclusive pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que declarou 2002 como o ano mundial de combate ao sedentarismo.
A diminuição da pressão arterial decorrente do exercício é maior em indivíduos com pressão arterial normal e promove o decréscimo de cerca de 5-7 mm Hg depois de exercício isolado (agudo) ou sucedendo exercício de treino (crônico). O efeito de uma única sessão de exercício pode apresentar duração de até 22 horas [18,19].
O controle da Hipertensão Arterial
Considerando a natureza multifatorial da HA, seu controle implica principalmente no conhecimento da fisiopatogenia ou pelo menos dos fatores envolvidos em cada situação particular. Melhor seria o conhecimento da etiologia e para tanto, as pesquisas para elucidar as causas, receberam grande impacto a partir do modelo unifatorial idealizado por Goldblatt [20] na década de trinta e que praticamente a definia como renovascular.
Seguiram-se a este modelo, inúmeras pesquisas e a aquisição de conhecimentos de enorme relevância, entre as quais as mais representativas talvez tenham sido a descoberta da renina em 1898 por Tigersted e Bergman [21], que trabalhando com extratos alcoólico e aquoso de córtex renal de coelhos, obtiveram uma substância que tinha efeito pressor quando injetada na veia dos animais denominando-a de renina, e a descoberta da Angiotensina em 1940, feita simultâneamente por Braun-Menendes na Argentina e por Page nos EUA.
Progressivamente as descobertas caminharam e consolidaram teoria do mosaico proposta por Irving Page, que admitiu múltiplos fatores para a etiologia [22].
No entanto dentro da concepção multifatorial da hipertensão arterial deve-se considerar especialmente a participação do sistema nervoso simpático em sua patogênese, que embora não seja exclusiva, apresenta inúmeras evidências apontando para o aumento da sua atividade [23,24].
Desde a instalação à manutenção, os presso-receptores e quimio-receptores arteriais, ou os receptores cardiopulmonares, possuem importância expressiva no controle e modulação de todas as formas de hipertensão arterial.
Os pressoreceptores arteriais (de alta pressão), participam do mecanismo reflexo mais importante para o controle da pressão momento a momento, e geram potenciais de ação pelas variações na forma da parede dos vasos, que são conduzidos ao núcleo do trato solitário no sistema nervoso central. Esses eventos promovem como resposta, o aumento da atividade vagal, redução da atividade simpática para o coração e vasos, diminuição da freqüência e contratilidade cardíacas, da resistência vascular periférica e da capacitância venosa.
Os receptores cardiopulmonares comportam-se como os pressoreceptores aórticos e carotídeos, bem como por ajustes aos desvios de pO2, pCO2 e pH. Da mesma maneira os quimioreceptores sensíveis à hipóxia, à hipercapnia e à acidose, desempenham papeis semelhantes para os ajustes químicos e indiretamente pressóricos. No conjunto o controle da pressão arterial resulta da atividade desses sistemas que interagem por retro-alimentação. [25].
Também se deve considerar relevante à influência hormonal como o da renina-angiotensina ou a ação sobre os vasos sangüíneos, de várias substâncias vasodilatadoras ou vasoconstritoras produzidas por células musculares lisas ou endoteliais, sobretudo com disfunção, e que poderão efetivamente manter a pressão arterial normal ou resultar no desequilíbrio por vasoconstrição e crescimento vascular, resultando o estado hipertensivo [26].
Neste mesmo sentido, o sobrepeso/obesidade, o excessivo consumo de sal, o ingestão alcoólica, o fumo, o emprego de drogas ilícitas, e a inatividade física, podem proporcionar interferências significativas no desencadeamento ou manutenção da HÁ.
Os exercícios físicos interferem na redução da pressão arterial pelo envolvimento de fatores hemodinâmicos, humorais e neurais.
O treinamento fisco regular e moderado em humanos promove a queda da pressão arterial [27] por diminuição atividade simpática periférica e do tonus simpático cardíaco. Este por sua vez, determina diminuição da freqüência cardíaca e a conseqüente queda do débito cardíaco [28]. Adicionalmente, o treinamento físico regular melhora a sensibilidade dos presso-receptores em animais normotensos e espontaneamente hipertensos, favorecendo o controle da pressão arterial [29].
De acordo com a American College of Sports Medicine position stand. Exercise and hypertension, publicada em 2004, os níveis de evidências das atividades físicas foram agrupados em quatro categorias (A, B, C, e D) para relatarem as seguintes conclusões referentes aos benefícios das atividades físicas como recomendações aos hipertensos, [18]:
Considerando tais evidências, o Colégio Americano de Medicina do Esporte afirma que os exercícios constituem a "pedra angular" na prevenção primária e no controle da hipertensão arter ial já estabelecida.
A entidade recomenda desta forma a Freqüência ótima dos exercícios, a Intensidade, o Tempo, e o Tipo (FITT), ressalvando a necessidade da adequação individual dos esforços tendo em conta a faixa etária, gênero e grupo étnico. Baseando-se nas evidências atuais recomenda para os portadores e hipertensão arterial:
Freqüência: tanto quanto possível, preferivelmente todos os dias da semana com descanso de apenas um dia,
Intensidade: moderada (40-60% do VO 2 max),
Tempo: 30 minutos de exercícios contínuos ou de atividade física acumulada ao dia,
Tipo: primariamente aeróbicos complementados por exercícios resistidos com pouco peso [18].
Os exercícios resistidos caracterizam-se pela contração de músculos contra uma resistência externa, e são comumente denominados exercícios de musculação. Essa atividade quando de baixa intensidade, com pequenos pesos melhora a resistência muscular localizada causando discretas elevações da pressão arterial durante o esforço, reduzindo-a posteriormente. Desta forma estão indicados como complemento dos exercícios aeróbicos. Ao contrário, os exercícios resistidos de alta intensidade, que visam à melhora da força e a hipertrofia muscular, provocam grandes elevações da pressão arterial e não devem ser recomendados para os hipertensos [30].
Bibliografia
| - Graduação, Doutorado e Livre Docência na Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina, exercendo atividades na Disciplina de Cardiologia Pós-Graduação senso estrito. - Professor Titular da Disciplina de Cardiologia da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC, onde exerce atividades administrativas e didáticas na Graduação, extensão e Pós-Graduação senso estrito. - Editor do livro "Cardiologia para o clinico geral"– Ed Atheneu, São Paulo, Brasil, 1998. Atualmente em progresso a segunda edição. |
| - Graduação, Mestrado e Doutorado na Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina. - Professor Titular da Disciplina de Propedêutica Clínica da Faculdade de Medicina de Santo Amaro, UNISA, e Docente da Disciplina de Cardiologia Faculdade de Medicina da Fundação do ABC, São Paulo, Brasil, onde exerce atividades didáticas na Graduação, extensão e Pós-Graduação. - Chefe do setor de Cardiopatia Hipertensiva da Faculdade de Medicina do ABC. |
- Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasilera de Cardiologia e Associação Médica Brasileira. |
Publicación: Septiembre 2005
FORMULARIO DESACTIVADO A PARTIR DEL
1ero. de Diciembre de 2005
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