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Hipertensión Arterial/Hypertension

Modulação da mecânica arterial pela
Diabetes Mellitus tipo II
 

Pereira T., Castanheira J., Conde J.

Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra,
Coimbra, Portugal.

 

 

Introdução: A Diabetes Mellitus (DM) é um importante factor de risco cardiovascular, representado em grande parte por danos vasculares que predispõem a uma aceleração da arteriosclerose e a uma instalação da aterosclerose. A disfunção vascular resultante constitui o o denominador comum dos principais eventos cardiovasculares determinantes da mortalidade e morbilidade encontrada neste contexto clínico
Objectivo: Avaliar as alterações na dinâmica arterial na diabetes (DM) tipo II.
Material e Métodos: Foram avaliados 60 indivíduos, dos quais 30 tinham DM tipo II e os restantes 30 eram clinica e analiticamente saudáveis (controlo). Os grupos foram ajustados em relação à idade e ao índice de massa corporal. A todos os indivíduos foi avaliada a velocidade da onda de pulso carotídeo-femoral (VOP), um indicador reconhecido de distensibilidade aórtica. As diferenças foram consideradas significativas para p<0,05.
Resultados: As pressões arteriais foram significativamente maiores no grupo DM (150±20; 88,7±10) em relação o grupo controlo (130±16;79±7) (p<0,05). Quanto à VOP, verificaram-se diferenças significativas, com o grupo DM revelando maior rigidez aórtica em relação aos controlos (vop respectivamente 10,9±2 vs 8,7±1, com p<0,05). A Pressão de Pulso foi também superior nos DM (62±10 vs 57±9).
Conclusão: A DM condiciona alterações vasculares importantes e plenamente enquadradas no reconhecido potencial agressor desta patologia para o sistema cardiovascular. Este facto é reforçado pela constatação de maiores índices de rigidez aórtica nesta população, com consequente comprometimento da função vasoreguladora das artérias centrais, expresso nas alterações da pressão arterial encontradas e num padrão de hiperpulsatilidade arterial. Estas alterações enquadram um contexto fisiopatológico que encerra um aumento da pós carga do ventrículo esquerdo, levando invariavelmente à sua hipertrofia, com consequências importantes do ponto de vista cardiovascular.

 

 

INTRODUÇÃO
A diabetes mellitus é um grave problema de saúde pública que atinge milhares de pessoas em todo o mundo. A sua prevalência tende a aumentar, muitos autores falam desta patologia como uma epidemia global [1,2,3].

Trata-se de uma síndrome clinica caracterizada por anormalidades endocrinológicas que se reflectem, ou na secreção de insulina, de tal forma que esta se torna insuficiente para as actividades metabólicas do organismo, ou na sua acção, não sendo suficientemente eficaz para cumprir os seus propósitos fisiológicos [4].

Em termos etiopatogénicos é uma síndrome bastante complexa à qual estão associadas uma grande variedade de doenças. Este facto confere à diabetes uma elevada taxa de morbilidade e de mortalidade [4].

As alterações cardiovasculares provocadas pela diabetes são de extrema importância, visto serem a grande causa do aumento da mortalidade nestes doentes. Uma dessas alterações é o precoce desenvolvimento da aterosclerose, que ocorre devido ao facto de as lipoproteínas apresentarem um aumento da afinidade com o endotélio, aumentando assim o potencial aterogénico das paredes dos vasos, assim como a formação de trombos que podem dar origem ao enfarte agudo do miocárdio, entre outras complicações [5,6,7].

A função do sistema arterial não se resume ao transporte de sangue. Uma função de grande importância exercida pelo sistema arterial é a função de amortecimento decorrente das propriedades viscoelásticas das artérias centrais, ficando esta função comprometida quando há comprometimento da distensibilidade arterial [8,9].

A função de amortecimento é uma função típica das artérias elásticas, e funciona como função reguladora da pressão arterial. As artérias elásticas vão acomodar parte do sangue proveniente da sístole ventricular, libertando-o na diástole, fazendo com que o suprimento sanguíneo seja um suprimento continuo [10].

A pressão de pulso (PP) é a pressão causada pela ejecção de sangue do ventrículo esquerdo para a aorta, e é definida como sendo a diferença entre a pressão sistólica e a pressão diastólica. A PP é considerada como o componente pulsátil da curva de pressão arterial, sendo o componente estático a pressão arterial média [11].

Podemos considerar a PP como sendo o somatório de uma onda que é proveniente da ejecção ventricular, denominada de onda incidente, com uma onda reflectida que retorna ao coração devido à resistência vascular [10].

Com o aumento das resistências vasculares há um aumento da velocidade da onda de pulso (VOP). O aumento da VOP faz com que o retorno da onda reflectida ocorra precocemente, originando desta forma um aumento da pressão sistólica e uma diminuição da pressão diastólica [10].

Um exagerado componente de reflexão da onda de pulso arterial pode aumentar significativamente a pressão arterial sistólica. Podemos também definir a pressão aumentada como o valor da pressão que aumenta à custa do retorno precoce da onda reflectida [12,13].

O objectivo deste trabalho foi, essencialmente, avaliar as alterações na dinâmica arterial condicionadas pela diabetes (DM) tipo II.

MATERIAL E MÉTODOS
A amostra foi constituída por trinta indivíduos com diabetes tipo II e por trinta indivíduos sem diabetes (grupo de controlo). Todos os indivíduos da amostra realizaram medição da velocidade da onda de pulso carotídeo-femoral, de acordo com um método previamente descrito [10], obtendo-se assim um indicador de distensibilidade aórtica.

As características fundamentais da amostra encontram-se sumariadas na tabela 1.

 

Grupo com DM tipo II

Grupo controlo

n

30

30

Idade

53,8 ± 10,81

51,2 ± 7,49

VOP

10,9 ± 2,19*

8,7 ± 1,35*

PAD (mmHg)

88,7 ± 10,92*

79,1 ± 7,09*

PAS (mmHg)

150 ± 20,39*

136,2 ± 16,86*

PAM (mmHg)

110,6 ± 13,94*

100,8 ± 10,69*

Pressão de Pulso Central (mmHg)

52,1 ± 16,57*

47,2 ± 14,63*

Pressão de Pulso Periférica (mmHg)

61,3 ± 16,53*

57,1 ± 15,28*

Tabela 1- Caracterização geral da amostra - * p<.05

Os dados foram inseridos numa base de dados do programa SPSS versão 11.5 inc., procedendo-se ao seu tratamento estatístico, após ajustamento para a idade. Foi aceite que existiam diferenças entres os grupos, ou seja, existia significância estatística para um valor de significância p<0,05.

RESULTADOS
A comparação dos valores tensionais entre os grupos revelou diferenças significativas (p<.01), com os DM tipo II a revelarem valores mais elevados, bem como a análise da VOP, que mostrou valores significativamente superiores nos DM tipi II em relação ao grupo controlo (tabela 1).

Adicionalmente, procurou-se avaliar a relação entre a VOP e a PP central extrapolada, tendo-se objectivado uma correlação moderada significativa entre as duas varíaveis, como podemos observar no tabela 2.

Tabela 2- Relação entre a VOP e a pressão de pulso central

 

DISSCUSSÃO
Os resultados revelaram claramente que a DM tipo II se acompanha de alterações hemodinâmicas importantes, espelhadas na objectivação de maiores pressões arteriais, essencialmente ao nível da pressão sistólica, onde as diferenças observadas foram mais marcadas. Estes resultados vão de encontro aos resultados de outro estudo onde se chegou à conclusão que a DM leva a um aumento da pressão arterial sistólica, aumento esse que se deve ao aumento da rigidez arterial  [14].

Podemos igualmente verificar que os indivíduos com DM tipo II apresentam uma distensibilidade arterial diminuída quando comparados com os indivíduos sem DM, o que está de acordo com outros estudos que demonstraram uma associação desta variante de diabetes com maior rigidez das artérias centrais, mais concretamente da aorta [14,15,16].

Do ponto de vista fisiopatológico, a perda de distensibilidade arterial, ao condicionar maior rigidez arterial, promove um aumento da velocidade da onda de pulso, o que leva a um retorno precoce da onda reflectida e a um consequente aumento da pressão arterial sistólica [10], decorrente da interacção a nível central entre a onda incidente resultante da contracção ventricular e da onda reflectida. Este facto explica que o impacto hemodinâmico nestes doentes se faça preferencialmente ao nível do componente sistólico da onda de pressão, e, por outro lado, que a pressão de pulso se encontre também alterada em consequência destas alterações estruturais.

No The Hoorn study, um estudo de coorte do qual fizeram parte 2260 indivíduos sem diabetes e 208 com diabetes tipo II, mostrou-se que na presença de DM tipo II há um aumento da pressão de pulso e que esse aumento é acentuado com a idade [18].

Em resumo, os nossos dados indicam que a DM condiciona alterações vasculares importantes e plenamente enquadradas no reconhecido potencial agressor desta patologia para o sistema cardiovascular. Este facto é reforçado pela constatação de maiores índices de rigidez aórtica nesta população, com consequente comprometimento da função vasoreguladora das artérias centrais, expresso nas alterações da pressão arterial encontradas e num padrão de hiperpulsatilidade arterial. Estas alterações enquadram um contexto fisiopatológico que encerra um aumento da pós carga do ventrículo esquerdo, levando invariavelmente à sua hipertrofia, com consequências importantes do ponto de vista cardiovascular.

 

BIBLIOGRAFIA

  1. FERRANNINI E. Pré-diabetes: to treat, or not to treat? Diabetes & Vascular Disease 2003; 3(sup. 1): 2-5.
  2. ZIMMET P. The burden of type 2 diabetes: are we doing enough? Diabetes & Metabolism 2003; 28: 9-18.
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  6. PINKOWISH MD. Diabetes e a aterosclerose: a dupla mais mortífera. Pacient Care- Edição portuguesa 2003; 8: 51-62.
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  8. BELZ GG. Elastic properties na windkessel funtion of the human aorta. Cardiovascular Drugs and Terapy 1995; 9: 73-83.
  9. PINTO LT. Effect of length on the fundamental resonance frequeny of arterial models having radial dilation. [serial on line] Floranópolis, 2001. Disponível em:http://www.enq.ufsc.br/labs/simpro/ensino/eqa5312/trabalhos/2001.1/2001.1equipe02
  10. SAFAR ME. Arteries in clinical hypertension. Philadelphia . Lippincott-Raven Publishers, 1996.
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  16. TOUTOUZAS K, STEFANADIS C, TSIAMIS E, VLACHOPOULOS C, TOUSOULIS C, TSIOUFIS C, et al. Aortic pressure-diameter relation in patients with non-insulin dependent diabetes mellitus: new insigts. Diabetologia 2000; 43 : 1070-75.
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  18. SCHRAM MT, KOSTENSE PJ, van DICK AJM, DEKKER MJ, NIJPELS G, DEKKER JM, et al. Diabetes, pulse pressure and cardiovascular mortality: the Hoorn study. Jounal of Hipertension 2002; 20: 1743-51.
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