Videografias do coração.
Um estudo etnográfico do cateterismo cardíaco.

Rosana Horio Monteiro
Profª Drª Programa de Mestrado em Comunicação e Linguagens
Universidade Tuiuti do Paraná (UTP)
Curitiba – PR
Brasil 

“Novos olhos sobre mundos escondidos”. Com esse título a revista Science de 27 de junho de 1997 anunciava uma série de reportagens especiais sobre o uso da imagem na ciência. Segundo o editorial da revista, graças aos avanços na ótica e na eletrônica pesquisadores de várias áreas estavam abrindo seus olhos para novos mundos ou conseguindo ver mundos já familiares sob uma nova luz, aproveitando do que chamaram de “a era de ouro” da imagem.
A importância e o valor que se atribui à imagem atualmente em ciência reflete-se também na prática médica. É só imaginarmos algumas situações: se alguém tem um resfriado prolongado, com tosse, e vai ao médico, este tem grande probabilidade de pedir um raio X dos pulmões. Uma vez com dores no abdome, uma ecografia ou ultra-sonografia da região são, hoje em dia, exames a que corriqueiramente se submete o paciente. Para as mulheres com mais de 40 anos, o ginecologista deve solicitar uma mamografia a cada dois anos, ou cinco, dependendo da história de vida da paciente ou do país em que vive, e assim por diante. A informação gerada por intermédio de uma máquina
¾ e de preferência que gere imagens ¾ parece ter precedência sobre outros tipos de informação na elaboração do diagnóstico. A imagem é tida como uma medida mais objetiva da (a)normalidade; um “retrato” fiel da realidade. No entanto,

1.      como o médico interpreta o resultado desses exames?

2.      como ele aprende a olhar e a interpretar as imagens?

3.      como ele usa essas imagens para construir seu diagnóstico?

4.      como, enfim, o conhecimento médico é produzido, e reproduzido?

Essas são questões que investiguei em Videografias do coração e, para tanto, optei por 1) enfocar um procedimento específico de diagnóstico por imagem de uma patologia particular ¾ o cateterismo cardíaco, realizado para diagnosticar obstruções coronarianas, e 2) centralizar o estudo num ambiente onde fosse possível acompanhar não só a realização desse exame, mas também o treinamento dos médicos que realizam o procedimento, portanto, um hospital-escola.
Daí também a opção pela pesquisa etnográfica dada a possibilidade que ela oferece de obtenção do detalhe descritivo do dia-a-dia de uma outra cultura, de seus ambientes sociais, que o pesquisador capta através da atividade de observação. Por essas características, a etnografia nos permitiu um maior envolvimento nos universos simbólico e social dos atores sociais estudados, destacando suas diferentes visões de mundo, culturas, alinhamentos paradigmáticos, posições hierárquicas e suas relações com a prática profissional.
Assim, esse trabalho é resultado de uma pesquisa empírica desenvolvida de junho a outubro de 1998 no Albany Medical Center (AMC), um hospital-escola localizado em Albany, estado de Nova York. Lá acompanhei regularmente como observadora a conferência semanal de cateterismo cardíaco do hospital, bem como alguns procedimentos de diagnóstico e de intervenção realizados no laboratório de cateterismo daquela instituição, e a iniciação nesse laboratório de alguns fellows
[1] em cardiologia. Além do trabalho de observação, foram realizadas entrevistas com cardiologistas, clínicos, cirurgiões, fellows, todos integrantes da equipe de cateterismo do AMC.
Apesar do trabalho empírico detalhado com uma especialidade médica particular, essa pesquisa pretendeu refletir sobre questões gerais pertinentes ao processo de construção, reprodução e transmissão do conhecimento médico, através de uma análise derivada da intersecção entre os estudos sociais da ciência e da tecnologia, a sociologia da medicina e a antropologia da medicina. E ao fazer isso, capturei, também, um pouco da complexa organização da medicina contemporânea, através do que chamei de uma viagem vídeo-etno-discursográfica através dos mundos sociais que envolvem a complexa divisão técnica e social do trabalho médico. Viagem discursográfica porque explora o trabalho diário de cardiologistas e fellows e seus respectivos discursos, atentando para a relação médico-médico.
Os mundos sociais a que me refiro são grupos interativos com compromissos comuns com certas atividades, compartilhando recursos para alcançar suas metas. Disciplinas, especialidades e tradições de pesquisa constituem-se em mundos sociais. Interessava-me entender como diferentes mundos sociais interagem para produzir coletivamente um fato
¾ um determinado diagnóstico médico, a partir da leitura, interpretação e julgamento de uma dada imagem, capturada do coração de um paciente qualquer através do cateterismo cardíaco.
Nesse estudo em particular, constituem-se em mundos sociais, entre outros, os médicos e suas diferentes especialidades (cardiologistas clínicos, invasivos, intervencionistas, cirurgiões); os pacientes (enquanto objeto de interesse dos atores estudados, muito embora não sejam diretamente investigados); as associações de classe, como o American College of Cardiology (ACC); o próprio hospital (AMC); a escola de medicina; a conferência de cateterismo (CC); e todos aqueles envolvidos no processo de construção de diagnósticos de anomalias coronarianas através das imagens obtidas pelo cateterismo cardíaco (técnicos, enfermeiros, funcionários administrativos).
No percurso dessa viagem identifiquei alguns objetos de fronteira que transitam entre os mundos sociais carregando informações sobre determinados órgãos e suas possíveis anomalias, em particular o coração e a saúde de suas artérias coronárias. Dentre esses objetos de fronteira, me detive em um em especial
¾ a imagem gerada pelo cateterismo cardíaco ¾ e me preocupei em entender como ela é lida e interpretada por atores de diferentes mundos sociais e como se aprende a lê-la, atribuindo-lhe significado e transformando-a em diagnóstico.
Esses assim chamados objetos de fronteira servem para organizar as relações conceituais, sociais e materiais entre os mundos sociais envolvidos no processo de representação em que se constitui o cateterismo cardíaco. São elementos culturais que de uma maneira ou de outra são centrais ao estabelecimento das relações produtivas entre os mundos sociais. Esses objetos abrangem desde o relato do paciente; as descobertas do laboratório; a observação clínica; os exames a que o paciente foi submetido; os elementos que compõem a construção de um caso; a imagem gerada pelo cateterismo cardíaco.
Para orientar o leitor, é importante esclarecermos que nessa pesquisa o conhecimento não é visto separadamente da organização social do trabalho que o produz, conforme a perspectiva simbólico-interacionista adotada por mim. Ao assumir-se que o conhecimento científico e a organização do trabalho que o produz são inseparáveis e considerando, por outro lado, que a prática médica localiza-se crescentemente dentro de organizações de considerável complexidade, em Videografias do coração entende-se o conhecimento médico como parte de uma divisão técnica e social do trabalho que repousa numa coleção de trabalhadores especializados que transforma os tecidos do corpo em valores e leituras. Nesse sentido, a fragmentação do corpo diretamente espelha a segmentação desse cenário médico.
Essa divisão de trabalho implica não somente a distribuição diferencial de expertise, mas também a dispersão de tarefas em diferentes espaços de tempo. Ainda, dentro de uma complexa divisão de trabalho, a atividade de diagnosticar está dispersa em diferentes mundos sociais, cada qual gerando sua própria informação, incorporada em várias formas de representação: filmes, notas, relatos de caso, histórico do paciente, resultados de exames etc. Cada um desses textos ou inscrições configura-se em um objeto de fronteira, cada qual representando o resultado de processos de tomada de decisão, o que implica uma interpretação e, portanto, envolvendo exercícios de tradução de um mundo para outro.
As decisões médicas então não são baseadas somente na informação disponível sobre um dado paciente. Elas são uma atividade coletiva, organizacional e, por isso, a tomada de decisão pode estar sujeita a debate, negociação, e revisão, baseando-se na conversa dentro e entre os grupos ou equipes de médicos, ou seja, dentro dos mundos sociais ou entre eles; pode envolver não somente mais de um médico, mas também mais de uma especialidade médica, que contribuem com diferentes visões de expertise e diferentes interesses organizacionais. Assim, o diagnóstico que se alcança pode ser fortemente influenciado pela cultura médica e organizacional, ou seja, o que o médico aprendeu na escola médica, o que ele sabe que os outros médicos vão dizer, e o que ele sabe que vai tranqüilizar o paciente.
Os atores individuais, apesar de comporem os mundos sociais, comumente agem como parte de ou em nome de seus próprios mundos sociais. O que implica dizer que diferentes especialistas vão definir seu trabalho e seus interesses de formas contrastantes, e, por isso, podem estabelecer o problema clínico e sua solução de maneiras diferentes uns dos outros. A medicina não é um todo coerente, não é uma unidade. Onde quer que se olhe, em hospitais, clínicas, laboratórios, nos consultórios, há multiplicidade.
O processo de leitura e interpretação de imagens médicas é socialmente construído, e, por conseguinte, os padrões de normalidade e anormalidade, apesar de legitimados ao serem incorporados à literatura e aceitos como padrão dentro do exercício da prática médica, são convenções estabelecidas a partir de processos de negociação entre diferentes atores sociais. Assim sendo, a interpretação dominante de uma imagem não é a única possível e a decisão médica que se orienta a partir dela reflete, tanto do ponto de vista do diagnóstico como do prognóstico, preferências relativas à prática médica.
Concluímos que a interpretação das imagens parece estar ligada à posição social, à experiência e formação acadêmica do médico, à sua posição na hierarquia profissional e à reputação da instituição em que atua. Em outras palavras, o que esses médicos vêem é o que aprenderam a ver com base em compromissos, vínculos com determinadas tradições de pesquisa, adquiridos durante a formação acadêmica, na prática profissional junto à instituição em que atuam, em suas áreas de especialização, e enquanto integrantes de determinados mundos sociais. Ou seja, o que o médico vê está inseparavelmente ligado e depende de como ele vê ― lê-se o tecido biológico através das lentes do social.Como uma médica entrevistada relatou, “os fatores que interferem na leitura/interpretação da imagem relacionam-se aos desejos do leitor [médico]”.



[1] Jovens médicos que já cursaram quatro anos de faculdade de medicina, três anos de residência em medicina interna, e que estão se especializando em áreas específicas da cardiologia através do programa de fellowship.